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Solidão no trabalho: como criar ligação, mesmo em teletrabalho

Está rodeado de colegas ou atrás de um ecrã e, mesmo assim, sente-se só. Porque acontece, o que ajuda e quando os pequenos passos já não chegam.

A videochamada terminou. Todos saem, o ecrã fica preto e está de novo à mesa da cozinha, com um café frio e uma lista de tarefas. Ou está no quarto andar de um escritório em open space, ouve trinta conversas ao mesmo tempo e nenhuma é consigo. Está rodeado de pessoas e, mesmo assim, sente-se só.

Isso não é fraqueza, e está longe de ser caso único. Antes da pandemia, segundo dados de inquéritos europeus analisados pelo Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia, 6,6% dos portugueses diziam ter-se sentido sós mais de metade do tempo nas duas semanas anteriores. Em 2020, essa percentagem subiu para 21,9%, a sexta maior subida da União Europeia. Os confinamentos acabaram, mas muitos hábitos ficaram, a começar pelo teletrabalho. E a solidão não escolhe idades: atinge também quem está a meio da vida, com a agenda cheia de trabalho, filhos, idas à escola e cuidados com os pais.

A solidão não é uma questão de números

Os investigadores fazem uma distinção que ajuda a perceber o que se sente. O isolamento social é objetivo: há poucos contactos. A solidão é subjetiva: é a distância entre o contacto que se tem e o contacto de que se precisa. Por isso é possível sentir-se só numa reunião com doze pessoas e estar bem num domingo tranquilo sem companhia.

O sociólogo norte-americano Robert Weiss propôs, já nos anos setenta, uma segunda distinção. A solidão social diz respeito a uma rede demasiado pequena ou demasiado frágil. A solidão emocional diz respeito à falta de alguém com quem se pode ser verdadeiramente quem se é. No trabalho, vê-se sobretudo a primeira. Há colegas, mas as conversas ficam pelo funcional: planeamento, prazos, quem faz a ata. O que falta é a conversa pequena, aparentemente inútil, que surgia sozinha junto à máquina do café ou no carro a caminho de um cliente. Em teletrabalho, quase desaparece, porque cada contacto passa a ser uma marcação na agenda.

Porque é que isto importa

A solidão parece um assunto privado, mas o corpo e o cérebro reagem a ela como a um sinal de que algo não está bem. Quem se sente só durante muito tempo fica muitas vezes mais atento à rejeição e interpreta mais depressa sinais neutros como negativos. Um e-mail curto da chefia parece frio. Um colega que não responde ao aceno parece aborrecido. Assim, a solidão pode alimentar-se a si própria: a pessoa afasta-se para evitar novas desilusões e acaba por ter ainda menos contacto.

A longo prazo, a ligação à saúde está bem estudada. Uma meta-análise de 148 estudos, com 308 849 participantes no total, concluiu que as pessoas com relações sociais mais fortes tinham uma probabilidade de sobrevivência 50% maior durante o período de acompanhamento. Em 2025, a Organização Mundial da Saúde estimou que 1 em cada 6 pessoas no mundo é afetada pela solidão e sublinhou que os adultos sós podem ter mais dificuldade em encontrar ou manter emprego.

O que pode fazer

A ligação não precisa de começar em grande. O que conta é a repetição. A confiança cresce a partir de pequenos momentos repetidos com as mesmas pessoas, muito mais do que a partir de um dia de equipa bem-sucedido uma vez por ano.

Comece pequeno e repita

Três minutos junto à máquina do café contam, sobretudo se se repetirem na semana seguinte com a mesma pessoa. Faça uma pergunta que permita mais do que "tudo bem, e contigo?". Como correu a mudança de casa? A sua filha já se adaptou à nova escola? As pessoas raramente se lembram do que disse exatamente. Lembram-se de que se lembrou.

Escolha uma pessoa

Não precisa de pertencer a todos os grupos. Um colega a quem possa dizer com franqueza que o dia começou mal já faz muita diferença. Convide-o para almoçar ou proponha fazer uma reunião a caminhar em vez de numa sala.

Torne o teletrabalho menos silencioso

O teletrabalho elimina os encontros por acaso, por isso é preciso organizá-los um pouco. Parece artificial, mas resulta melhor do que esperar. Há equipas que marcam uma chamada fixa de quinze minutos entre dois colegas, sem ordem de trabalhos. Outras começam as reuniões com dois minutos de uma pergunta a sério, com a câmara ligada quando possível. Combinar o mesmo dia de escritório com alguns colegas evita a sensação de trabalhar entre secretárias vazias. E apanhar o mesmo comboio ou partilhar o carro de vez em quando, nem que seja uma vez por semana, devolve um pouco daquela conversa que não serve para nada e serve para tudo.

Diga-o em voz alta

Muitas pessoas esperam que seja o outro a dar o primeiro passo. O outro, quase sempre, também está à espera. Uma frase como "tenho sentido falta das nossas conversas desde que estamos mais em casa, combinamos alguma coisa?" deixa-nos expostos, mas raramente é mal recebida. Muitas vezes, o outro fica sobretudo aliviado.

Não faça do trabalho o seu único círculo

Quem tem quase todo o contacto social no trabalho fica vulnerável a uma reestruturação, a uma nova chefia ou a um conflito. Um grupo de corrida, a associação de pais da escola, o rancho ou o coro da terra, voluntariado, um curso à noite: cada pequeno círculo amortece parte do impacto quando as coisas correm mal noutro lado.

O que as chefias e os RH podem fazer

A solidão no trabalho não é apenas uma tarefa individual. Equipas que só comunicam por pedidos e chamadas agendadas tornam o contacto espontâneo quase impossível. Uma chefia que, numa conversa individual, pergunta também como a pessoa está de facto, que dá aos novos colegas um ponto de contacto fixo e que alinha os dias de escritório para que as pessoas se encontrem mesmo, faz mais do que um evento de equipa anual. O importante é que nada pareça obrigatório. Uma sessão de descontração imposta às cinco da tarde costuma ter o efeito contrário.

Quando os pequenos passos não chegam

Estas sugestões ajudam quando a solidão tem sobretudo a ver com falta de oportunidades. Funcionam pior quando há outra coisa por baixo. Sente-se só há meses, evita cada vez mais o contacto, dorme mal, já não tem vontade de nada ou vê-se sobretudo como um peso? Nesse caso, é mais do que um problema prático. A solidão e o humor depressivo podem reforçar-se mutuamente, e falar com o seu médico de família ou com um psicólogo é o passo certo. A ansiedade social também pode fazer com que uma pausa para café pareça um exame. Existem bons tratamentos para isso.

Se pensa em suicídio, fale sobre isso de imediato. Em Portugal, pode ligar para o SNS 24 através do 808 24 24 24, onde psicólogos atendem a qualquer hora. Em caso de perigo imediato, ligue 112.

Por vezes, já ajuda falar com alguém fora do seu círculo sobre o que lhe falta e onde se sente bloqueado. A sua entidade empregadora pode oferecer apoio confidencial através da Meapy Health. Uma conversa com um psicólogo ou um coach é então gratuita, e a entidade empregadora não sabe que foi você quem ligou.

Fontes

  • Diário de Notícias (Lusa), Solidão duplica na União Europeia devido à pandemia e Portugal tem 6.ª maior subida, sobre o relatório do Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia, 2021. dn.pt
  • Holt-Lunstad J., Smith T.B., Layton J.B., Social Relationships and Mortality Risk: A Meta-analytic Review, PLoS Medicine, 2010. doi.org/10.1371/journal.pmed.1000316
  • Organização Mundial da Saúde, Social connection linked to improved health and reduced risk of early death, 2025. who.int
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